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  • Anuska Pittella

Guia prático do calouro

Este texto foi originalmente publicado no meu antigo blog, Guia do estudante de Medicina, em fevereiro de 2013. Como acho um texto muito legal e atemporal, resolvi republicá-lo aqui. Sabemos que boa parte do nosso público está no início da faculdade e esperamos que algumas dicas aqui possam ajudar vocês!


Bom, hoje escreverei um post que planejo desde que comecei o blog. Naquele meu primeiro texto cheguei a dizer, em uma das histórias, como calouro sofre pra entender coisas que para aqueles já estão na faculdade faz tempo são banais - justamente por não haver nenhum lugar onde ele pode aprendê-las e pelo fato de, na maioria das vezes, os veteranos serem desnecessariamente hostis. A faculdade e a escola são imensamente diferentes. É difícil se acostumar com um ambiente novo e aprender a se virar em tão pouco tempo - de certa forma, parece aquela transição da infância pra adolescência (onde você quer que sua mãe te deixe sair sozinho e voltar tarde, mas ainda pede presente de dia das crianças), só que mais branda e menos chata (porque, né, prefiro ser caloura do que pré-adolescente com milhões de espinhas e um nariz que cresceu antes do resto do rosto acompanhar). Esse post também pode ser útil pra você que, apesar de já estar inserido neste mundo faz um tempo, continua tendo suas dúvidas em relação a certas coisas. Será um texto diferente do último que fiz: mais fragmentado e, talvez, menos interessante para aqueles que não vivem o contexto do público-alvo. Mas prometo outro post de opinião ainda esta semana :)

Tentarei abordar aqui tudo que acho pertinente, mas se eu esquecer algo e você, leitor, lembrar pra mim, faça um comentário e ajude a complementar esta postagem! Bom, chega de enrolar, vamos ao que interessa!

Essa figura é meramente ilustrativa porque na faculdade todo mundo só tem um pedaço de papel, uma Bic mordida e o aplicativo "Notas" do celular

1) Dicas gerais

  • Tenha um amigo veterano - amigo mesmo, não alguém que vai ficar te trollando e te passando informações erradas. Assim, você pode obter opiniões sobre matérias, professores (se tal professor é chato, exigente, engraçado, o que gostam de cobrar nas provas) e pode conseguir materiais e  resumos bons pra tirar xerox.

  • Não se importe com as pessoas te chamando de "calouro burro". Elas só estão com saudades da época em que todos te cumprimentam por ter passado em medicina.

  • Conhecimento é algo que se obtém devagar e aos pouquinhos. Não se desespere por não saber muito, e também não se ache o grande detentor de sabedoria por ter entrado em medicina. Se sua tia perguntar qual remedinho ela passa na ferida que apareceu em seu braço, caso você não saiba, não insista em responder. É melhor não falar nada do que falar coisa errada.

  • Cadáver: a grande curiosidade de todos. O pior do cadáver é, na verdade, o formol: ele queima suas narinas por dentro e arde seu olho (embora eu tenha passado muito mais aperto com formol quando tive patologia I do que anatomia). Nunca vi ninguém passando mal por causa de cadáver (no sentido de vomitar e ter nojo, pois já vi gente passar mal com formol), mas se esse for o seu caso, fique calmo e tente pensar nele como um objeto de estudo. Se o caso for mais grave, a maioria das faculdades têm psicólogos que podem te ajudar.

  • Faça as chamadas "coisas de calouro". Tire foto do seu lindo jaleco, de você no laboratório de histologia olhando no microscópio, todo esse tipo de coisa. Aproveite sua calourice! hahaha

  • Aproveite para ir nas festas, churrascos e sair com os amigos agora, porque depois sua vida vai ficar tão corrida e apertada que talvez não dê mais tempo de socializar tanto quanto você queria (quer dizer, né, cada um torna prioridade o que quiser).

  • Não perca a fé no curso e naquilo que você acredita. Muitas pessoas entram na faculdade de medicina com um coração muito bondoso e uma grande vontade de mudar o mundo - parte delas acabam perdendo essa vontade depois de tanto ver gente desinteressada lidando mal com os pacientes (além da roubalheira política e a falta de investimento no SUS). Não deixe isso te abalar. Você ainda pode fazer muito pra mudar a atual situação se seguir aquilo que acredita.


2) Trote Certeza que muita gente vai me xingar por essa parte do texto, mas vamos lá.

Alguns faculdades possuem trotes mais legais, onde os calouros levam roupas, brinquedos e alimentos não-perecíveis para doação - além de o sujarem e pintarem. Já em outras, a coisa funciona na base da humilhação mesmo, e quem participa geralmente é obrigado a fazer coisas bastante degradantes.Quando passei no vestibular, não quis participar do trote (desculpa, mas ir voluntariamente morder cebola e ter sua bunda julgada em um concurso de calouras é um pouco de retrocesso intelectual na minha opinião). Me disseram que eu não poderia participar de festa nenhuma e seria excluída socialmente de tudo - algo que não aconteceu nem comigo nem com meus colegas que resolveram não participar. Eu estudo em uma faculdade particular e sei que em algumas federais (e mesmo outras particulares) a coisa pode ser mais pesada e você pode ter menos direito de escolha entre participar ou não. Mas já conversei com alguns amigos que são de várias UFs diferentes e eles dizem que poderiam ter escapado do trote se quisessem e, inclusive, algumas pessoas se safaram e  não rolou exclusão social. Quando meu pai entrou na faculdade (ele fez engenharia na UFMG), o trote que faziam durava uma semana: em cada dia, era estabelecido que os calouros trouxessem algo para doar (por exemplo, na segunda era dia dos casacos, na terça dia dos brinquedos, e por aí vai). No último dia da semana, rolava a coisa de pintar e rasgar as roupas (mas sem outras brincadeiras de mau gosto) e eles iam pedir dinheiro nas ruas. Depois, juntavam toda a grana arrecadada e faziam um churrasco entre calouros e veteranos. Além disso, tem certas brincadeiras que são engraçadas e não fazem mal a ninguém. Uma amiga minha que faz comunicação social me contou que, no trote que ela deu, cada calouro ganhou um "ovo de estimação", o qual terão que cuidar e devolver - em perfeito estado - depois de uma semana. Há quem enxergue o trote como um ritual de passagem e mal pode esperar para recebê-lo. Cada um decide o que é melhor pra si mesmo - se você não se importa em ter que fazer certas coisas humilhantes e ser xingado de nomes que talvez te deixem chateado, vai na fé. Mas antes, procure saber com um veterano amigo como é o trote do local onde você estuda, se é pesado, que tipo de "brincadeira" fazem, etc. Aos veteranos: seria legal se alguém compartilhasse histórias de trotes nos comentários, tanto positivas quanto negativas. Como esse é um aspecto que varia muito de faculdade pra faculdade, é difícil fazer um texto mais pontual e assertivo sobre isso apenas com o que vivi no lugar onde estudo e do que ouvi de amigos.


3) Livros

Lembra que, na escola, você tinha a lista de material escolar e, necessariamente, precisava comprar (ou xerocar) todos os livros que lá estavam listados? Pois é, na faculdade não vai ter lista e, se você quiser, pode ficar o curso todo sem comprar um livro sequer. Livros de conhecimento médico são caros: uns mais, outros menos - porém, dificilmente, você irá encontrar algo por menos de 100 reais. Aqui estão algumas dicas que você pode ter em mente na hora de fazer uma compra e não gastar dinheiro à toa:

  • Existem muitos livros de muitos autores diferentes, por isso seus professores terão uma bibliografia recomendada, seguida por eles ou mesmo pelo que sua faculdade indica. Porém, se você deseja comprar, faça uma pesquisa antes - muitas vezes, o livro que o professor indica pode não ser o que você mais gosta. Alugue livros diversos na biblioteca e veja qual é o que mais te atrai.

  • Você não precisa adquirir livros novos necessariamente. Pode comprar usados em sebos ou mesmo na internet. A vantagem do sebo é que você pode verificar a condição do livro antes de comprar (por ser usado, pode estar meio acabado) - na internet, é necessário confiar na descrição do vendedor. Mas no Mercado Livre e no Busca Pé (e muitos outros sites, dê uma checada no Google) você pode encontrar material bom de vendedores de confiança. A opção que algumas editoras oferecem de comprar o e-book também é excelente, visto que geralmente sai muito mais barato.

  • Diferente da escola - onde o conhecimento é praticamente estático e o que é ensinado aos alunos é quase completamente imutável - a ciência constantemente altera aquilo que aprendemos na medicina. Possivelmente, aquilo que você, que está entrando no primeiro período agora, irá aprender, é um pouquinho diferente do que eu aprendi há dois anos. E com certeza é muito diferente daquilo que quem vai entrar na faculdade daqui a vinte anos irá estudar. Tenha isso em mente na hora de escolher um livro: algumas ciências são muito mutáveis na medicina, como a farmacologia - edições diferentes trarão novidades significativas. Outras áreas são mais estáticas, como a anatomia: a última grande mudança nos livros ocorreu em 1998, onde alteraram os nomes de algumas (poucas) estruturas. Por isso, um livro de anatomia é pra vida inteira - um de farmacologia não será. Pense nisso e tenha em mente opções econômicas.

  • Assim como a ciência vai mudando os livros, de um autor pra outro podem haver divergências com relação a conceitos. Por exemplo: alguns consideram o cérebro como sendo apenas composto pelo telencéfalo, outros pelo telencéfalo e diencéfalo e terceiros pelo telencéfalo, diencéfalo e mesencéfalo. Por isso seu professor e sua faculdade possuem uma bibliografia recomendada: eles seguirão o que aquele livro específico fala, para não haver confusão. Em provas de residência isso é feito também. Por isso, tente, se possível, saber quais são as diferenças pra não ser pego de surpresa numa correção de prova caso você tenha estudado por um livro diferente do que aquele da bibliografia recomendada. Sei que às vezes isso não é possível (já ouvi falar que livros de ginecologia e obstetrícia diferem em pontos diversos, e fica difícil guardar).

  • Você também pode perceber que alguns livros valem a pena ser comprados (como de anatomia e fisiologia). Eles serão muito necessários e, mais pra frente no curso, muito do que você aprendeu nessas disciplinas será esquecido. Acho que, se você está com a grana sobrando, pode comprar vários livros - mas se o dinheiro está curto, favoreça aqueles de matérias que são a base da medicina e aqueles de disciplinas que você gosta. Se comprar algum livro, acabar não usando e se arrepender não se preocupe, é só tentar uma revenda.

Nota de 2018 ~ o futuro ~: no texto original, eu recomendava xerocar livros como uma forma de adquiri-los. Como produtora de conteúdo, atualmente sou contra esse tipo de prática, pois viola os direitos autorais sobre a obra. Fazer esse tipo de material dá um baita trabalho - que deveria ser mais valorizado. Sei que xerocar é uma prática comum em todas as faculdades e que universitário não nada em dinheiro, mas na medida do possível, tente valorizar o conteúdo que te ajuda a estudar.


Eu e meu amigo Léo em um congresso onde fomos premiados pelos melhores trabalhos orais (e nos deram um checão Faustão style, que foi de longe a melhor parte do prêmio)

4) Congressos e outros eventos científicos

  • Não queira ir num congresso de neurocirurgia (ou qualquer outra coisa complicada) estando no primeiro período. Você não vai entender absolutamente nada - são assuntos absurdamente específicos pra quem tá só começando (oi Suzana Vieira). Além disso, inscrições pra congressos grandes geralmente são muito caras - você não vai querer pagar 1000 reais pra sentar lá sem entender absolutamente nada (atualizei esse valor em 2018 porque antigamente tava escrito 300 reais e hoje em dia isso nem é tão caro assim #inflação). Não coloque o carro na frente dos bois (coisa de vó falar isso né). Acho que só vale a pena ir se um de seus pais é neurocirurgião e pode te levar junto com ele.

  • Tente frequentar eventos mais voltados para acadêmicos. Mesmo assim, entenda que muito do que falarem você pode não vai compreender, e não há motivo para se deseperar. Tenha calma. O conhecimento é algo que se adquire de forma lenta.

  • Em muitos congressos, é possível enviar trabalhos em forma de pôster ou apresentação oral. Recomendo ir num evento que ofereça isso para você observar primeiro como tudo funciona. Não sei se é ideal fazer trabalhos sendo calouro também. O primeiro que fiz foi quando estava no segundo período, então eu diria que é bom esperar um pouquinho. De qualquer forma, leia um edital de envio de trabalhos de algum congresso, só pra ter uma ideia de como as coisas são.

  • Prefira congressos que são acreditados pelo CNA (Comissão Nacional de Acreditação). Se você publica um trabalho em um evento que não é acreditado, em alguns lugares (cada estado brasileiro tem um parâmetro) isso pode acabar não sendo levado em consideração no seu currículo. Abordarei mais sobre este aspecto a frente.

  • Todo estudante (de qualquer curso) tem uma carga de horas-extra pra cumprir. Isso pode ser feito por meio da realização de várias atividades (como monitoria) e da participação em eventos científicos. Pelo menos na minha faculdade, é necessário completar essas horas antes do internato, e ir em congressos é uma boa forma de cumprir esse extra.

  • Como eu já havia dito na primeira postagem, é possível faltar alguns dias de um evento e ainda ganhar certificado. A maioria só exige 50% de presença, e mesmo assim já vi muita gente faltar tudo e ainda ganhar. Acho que esse tipo de punição só ocorre quando se trata de um congresso maior, mas aí você também não vai pagar caro pra faltar tudo né?



5) Currículo

Existem várias coisas que você pode fazer e que, tecnicamente, "contarão ponto" no seu currículo quando for fazer residência. Porém, em cada estado analisam isso de uma forma diferente, e a tendência é que cada vez mais a prova seja valorizada em relação ao seu histórico. Por isso, tente fazer aquilo que te trará conhecimento e reconhecimento (dá pra fazer um slogan de propaganda aqui). Coisas que possam te trazer contatos na área médica (algo especialmente bom para aqueles que não são filhos de médicos) e também enriquecer seu conhecimento. Não chegue no fim do curso com um currículo em branco, pois isso também vai depor muito contra você (pode passar uma imagem de desinteressado). Porém, não deixe que atividades das quais você não tem obrigação de participar atrapalharem seus estudos. Como disse, as provas estão sendo mais valorizadas. De qualquer forma, aqui estão algumas coisas que são valorizadas em currículo (o quanto elas serão valorizadas depende do local, e até mesmo de quem vai avaliar):

  • Monitoria

  • Participação em ligas acadêmicas (falarei mais sobre isso)

  • Trabalhos científicos publicados em congressos nacionais e internacionais

  • Média acima de 8,5 em pelo menos 50% das matérias

  • First Certificate in English (FCE) com nota A (outros certificados - de outros de idiomas - também são aceitos, porém não sei informar a partir de que nota isso acontece - no caso do FCE, notas B e C não contam)

  • Organização de eventos científicos (com CNA)


Liga de Hematologia de Juiz de Fora, uma das melhores coisas da qual fiz parte quando estava na faculdade :)

6) Entidades discentes em faculdades

  • Ligas acadêmicas: são grupos de alunos que se reúnem (e, dependendo da atividade proposta pela liga, realizam estágios e atividades práticas) para aprofundar seus estudos em determinado tema. Dependendo da faculdade, existem ligas de matérias básicas (como anatomia e fisiologia) e outras de disciplinas mais avançadas (como de especialidades cirúrgicas) - geralmente essas são as ligas que promovem mais atividades práticas. As ligas possuem diretorias e geralmente, admitem novos alunos por meio de provas.

  • Diretório Acadêmico (DA) e Diretório Central dos Estudantes (DCE) - um DA é um grupo de estudantes que representa seu curso. O DCE, por sua vez, vai defender os interesses de todos os estudantes no geral. Nem todas as faculdades possuem DCE, mas todo curso deveria possuir o seu DA, para que a opinião dos estudantes seja defendida e representada perante à diretoria docente de curso. Para eleger chapas para ambos, são feitas eleições. 

  • Atléticas: são entidades discentes que promovem o esporte no meio acadêmico da medicina. Geralmente organizam festas bastante elogiadas e eventos esportivos - um exemplo famoso é o Intermed.

  • Representante do colegiado: é o aluno que participa de reuniões com professores e diretores do curso representando todos os outros discentes. Também é escolhido por meio de eleição.

__________________ Eu ia falar também sobre a estrutura do curso de medicina, mas vou deixar pra próxima. Ou então o post vai ficar gigantesco!

Bom galera, acho que por hoje é só. Espero que esse texto ajude os leitores calouros e mesmo aqueles que ainda não são! Eu mesma demorei para entender como funciona toda a dinâmica de faculdade e acho que gostaria de ter lido algo assim nos meus tempos de caloura. É claro que não sou dona da verdade e as dicas que dou podem não ser muito boas para algumas pessoas. Mas espero ajudar um pouquinho cada um que está perdido a se situar nesse novo ambiente. Se alguém tem algo de legal pra falar não se acanhe, use os comentários para tal :) Um abraço a todos e até a próxima postagem!

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